Os sintomas mais conhecidos não são necessariamente os mais vividos
Quando se fala em perimenopausa, os fogachos costumam ocupar o centro da conversa. Mas uma pesquisa global publicada em 2026 na revista Menopause mostra que a experiência real das mulheres pode começar de outra forma: com cansaço persistente, sensação de esgotamento, irritabilidade, sono ruim, alterações de humor e até queixas digestivas.
O estudo, conduzido por pesquisadores da Mayo Clinic e da Flo Health, reuniu 17.494 participantes de 158 países. O objetivo foi comparar o que as mulheres reconhecem como sintoma da perimenopausa com aquilo que relatam sentir no dia a dia. O resultado revelou um hiato importante entre conhecimento e experiência.
Entre todas as participantes, os sinais mais reconhecidos como relacionados à perimenopausa foram fogachos, citados por 71%, problemas de sono, por 68%, e ganho de peso, por 65%. Já entre as 12.681 participantes com 35 anos ou mais, os sintomas mais relatados foram fadiga, em 83%, exaustão física e mental, também em 83%, e irritabilidade, em 80%.
O que muda quando olhamos apenas para quem se identifica na perimenopausa
Há uma diferença importante na leitura dos números. Os percentuais de 83%, 83% e 80% consideram todas as participantes com 35 anos ou mais, independentemente do estágio reprodutivo informado. Quando os pesquisadores analisaram apenas as mulheres que se identificavam como estando na perimenopausa, a frequência foi ainda maior: exaustão física e mental em 95%, fadiga em 93% e irritabilidade em 91%.
Nesse grupo, problemas de sono apareceram em 89% e humor deprimido em 88%. Os dados reforçam que a transição menopausal pode se manifestar muito antes de os fogachos se tornarem evidentes – e que os primeiros sinais nem sempre são percebidos como parte de uma mudança hormonal.
Por que esses sintomas passam despercebidos
Fadiga, dificuldade para dormir, ansiedade, irritabilidade e queda de concentração são sintomas comuns a muitas condições e também podem ser atribuídos ao excesso de trabalho, ao cuidado com a família, ao estresse ou ao envelhecimento. Essa falta de especificidade ajuda a explicar por que tantas mulheres demoram a relacionar o que sentem à perimenopausa.
A própria pesquisa mostrou diferenças entre países. O conhecimento sobre sintomas foi, em geral, maior em países de renda mais alta, mas permaneceu baixo em todas as regiões avaliadas. Também houve variação na forma como os sintomas foram relatados: queixas digestivas apareceram entre as mais frequentes em alguns países, enquanto ansiedade e humor deprimido ganharam destaque em outros.
Essas diferenças não significam que exista uma perimenopausa completamente distinta em cada lugar. Elas sugerem que cultura, acesso à saúde, linguagem, expectativas e formas de reconhecer ou comunicar desconfortos podem influenciar a experiência relatada.
Perimenopausa não se resume a uma lista de sintomas
A perimenopausa é a fase de transição que antecede a menopausa e se estende até 12 meses após a última menstruação, quando a menopausa é confirmada. Costuma começar na faixa dos 40 anos, mas os sintomas podem surgir ainda na segunda metade dos 30. A duração e a intensidade variam muito de uma mulher para outra.
Durante essa fase, a produção hormonal não cai de maneira linear. As oscilações de estrogênio e progesterona podem se refletir no ciclo menstrual, na regulação da temperatura, no sono, no humor e na percepção de energia. Por isso, observar o conjunto dos sintomas e sua evolução costuma ser mais útil do que esperar por um sinal considerado clássico.
O que observar no dia a dia
Vale prestar atenção quando mudanças antes incomuns começam a se repetir ou interferem na rotina. Entre os sinais que podem aparecer estão:
· fadiga persistente ou sensação de não recuperar a energia mesmo após descansar;
· exaustão física e mental desproporcional às atividades do dia;
· irritabilidade, ansiedade ou variações de humor;
· sono fragmentado, dificuldade para adormecer ou despertar precoce;
· alterações no ciclo menstrual, no fluxo ou no intervalo entre as menstruações;
· dificuldade de concentração, esquecimento ou sensação de névoa mental;
· fogachos, suores noturnos, alterações digestivas ou mudanças no peso.
Reconhecer a possibilidade não significa fechar o diagnóstico
Os sintomas descritos no estudo não são exclusivos da perimenopausa. Anemia, alterações da tireoide, deficiências nutricionais, distúrbios do sono, depressão, ansiedade, uso de medicamentos e outras condições também podem causar manifestações semelhantes.
Por isso, a avaliação deve considerar idade, padrão menstrual, intensidade e duração dos sintomas, histórico clínico, medicamentos em uso e impacto na qualidade de vida. Dependendo do caso, o profissional poderá indicar exames ou encaminhamentos para investigar outras causas.
O tratamento também precisa ser individualizado. Mudanças de hábitos, cuidado com o sono, atividade física, psicoterapia, tratamento de condições associadas e terapia hormonal podem fazer parte do plano, conforme os sintomas, as preferências e o perfil de saúde de cada mulher.
Informação amplia a chance de cuidado no momento certo
O principal recado da pesquisa não é que todo cansaço depois dos 35 anos seja perimenopausa. É que a ausência de fogachos não exclui essa possibilidade. Quando mulheres e profissionais conhecem a diversidade de manifestações, torna-se mais fácil iniciar uma conversa qualificada e evitar que sintomas relevantes sejam normalizados ou tratados isoladamente.
A proximidade do Dia Mundial da Perimenopausa, lembrado em 22 de setembro, reforça a necessidade de ampliar a educação sobre essa fase. Dar nome ao que está acontecendo não é exagerar sintomas: é criar condições para compreender padrões, investigar causas e escolher o cuidado mais adequado.
Quando procurar ajuda
Procure avaliação profissional quando os sintomas forem persistentes, piorarem progressivamente ou começarem a afetar o trabalho, os relacionamentos, o sono, a saúde emocional ou as atividades habituais. Sangramento menstrual muito intenso, sangramento após relação sexual, dor pélvica importante ou qualquer sangramento após 12 meses sem menstruar também merece avaliação médica.
Conhecimento para atravessar a transição com mais segurança
A perimenopausa pode ter muitas faces. Reconhecer fadiga, exaustão, irritabilidade e alterações do sono como parte possível dessa transição não substitui uma avaliação completa, mas ajuda a fazer as perguntas certas.
Na MenoTech, acreditamos que informação baseada em evidências transforma a experiência da menopausa. Se você percebeu mudanças no corpo, no ciclo, no sono ou no humor, registre os sintomas e converse com um profissional qualificado.
Referências
1. Hedges MS, Hewings-Martin Y, Karam J, et al. Global perspectives on perimenopause: a digital survey of knowledge and symptoms using the Flo application. Menopause. 2026;33(7):789-798. doi:10.1097/GME.0000000000002730.
2. The Menopause Society. International Differences Exist in Knowledge Gaps and Most Common Perimenopause Symptoms. Press release. 27 jan. 2026.
3. Flo Health. Flo Health and Mayo Clinic collaborate to publish first-of-its-kind global digital study on perimenopause awareness. 28 jan. 2026.
4. World Health Organization. Menopause. Fact sheet.

