No Dia Mundial do Coração, celebrado em 29 de setembro, o alerta não precisa começar depois da última menstruação. Uma análise publicada em 2026 no Journal of the American Heart Association sugere que mudanças relevantes na saúde cardiovascular já aparecem durante a perimenopausa — a fase de transição que antecede a menopausa.
O gancho é forte: o risco do seu coração pode estar mudando agora, mesmo antes da menopausa. Mas a ciência exige precisão. O estudo não acompanhou infartos nem concluiu que a perimenopausa dobra, por si só, o risco de um evento cardiovascular. Ele encontrou o dobro da chance de uma pontuação global baixa em um conjunto de oito indicadores de saúde do coração.
O que o estudo investigou
A pesquisa, liderada por Amrita Nayak e publicada na JAHA, analisou dados de 9.248 mulheres de 18 a 80 anos que participaram do National Health and Nutrition Examination Survey, nos Estados Unidos, entre 2007 e 2020. Mulheres grávidas, amamentando ou com doença cardiovascular prévia foram excluídas.
As participantes foram classificadas em três grupos: 5.882 na pré-menopausa, 205 na perimenopausa e 3.161 na pós-menopausa. A saúde cardiovascular foi avaliada pelo Life’s Essential 8, ferramenta da American Heart Association que reúne quatro comportamentos e quatro fatores clínicos.
· alimentação, atividade física, exposição ao tabaco e sono;
· peso corporal, colesterol, glicemia e pressão arterial.
A pontuação vai de 0 a 100: abaixo de 50 foi considerada baixa; de 50 a 79, intermediária; e 80 ou mais, ideal.
O que os números mostraram
A mediana da pontuação cardiovascular caiu conforme avançava o estágio reprodutivo: 73,3 pontos na pré-menopausa, 69,1 na perimenopausa e 63,9 na pós-menopausa.
Mesmo depois do ajuste estatístico para o efeito da idade, as mulheres na perimenopausa apresentaram:
· duas vezes mais chance de ter pontuação global baixa no Life’s Essential 8;
· 76% mais chance de apresentar pontuação baixa no componente colesterol;
· 83% mais chance de apresentar pontuação baixa no componente glicemia.
| A leitura corretaO estudo identificou uma pior condição global de saúde cardiovascular na perimenopausa. Ele não demonstrou que a perimenopausa causa doença cardíaca nem que o risco de infarto ou AVC dobra imediatamente. |
Por que o coração pode mudar antes da menopausa
Durante a perimenopausa, estrogênio e progesterona oscilam. Essas mudanças podem participar de alterações no colesterol, na sensibilidade à insulina, na pressão arterial e no controle do peso. Ao mesmo tempo, envelhecimento, genética, alimentação, sono, atividade física, tabagismo, estresse e determinantes sociais também influenciam o risco cardiovascular.
Por isso, não existe uma causa única — nem uma solução única. O ponto mais importante é reconhecer a transição menopausal como uma oportunidade de revisar fatores que podem permanecer silenciosos por anos.
O que vale acompanhar na perimenopausa
A prevenção não precisa esperar o fim dos ciclos menstruais. A avaliação deve ser individualizada, mas pode incluir:
· pressão arterial;
· perfil lipídico, incluindo colesterol total, LDL, HDL e triglicerídeos;
· glicemia e, quando indicado, hemoglobina glicada;
· peso, composição corporal e circunferência abdominal;
· histórico familiar e pessoal de doença cardiovascular;
· tabagismo, alimentação, atividade física, sono e consumo de álcool;
· eventos específicos da saúde feminina, como pré-eclâmpsia, diabetes gestacional e menopausa precoce.
Resultados alterados não devem ser interpretados isoladamente. O risco global depende da combinação entre idade, histórico, exames, hábitos e condições clínicas. A equipe de saúde pode definir a periodicidade do acompanhamento e a necessidade de investigação adicional.
Onde entra a terapia hormonal
A terapia hormonal pode ser indicada para sintomas do climatério em mulheres selecionadas, após avaliação de benefícios, riscos e contraindicações. Ela não deve ser iniciada com o objetivo exclusivo de prevenir doença cardiovascular. A decisão é individual e não substitui o controle de pressão, colesterol, glicemia e hábitos de vida.
Uma janela para agir, não um motivo para pânico
O estudo reforça uma mudança de perspectiva: a saúde do coração na mulher não começa a merecer atenção apenas depois da menopausa. A perimenopausa pode ser a primeira fase em que indicadores cardiovasculares se afastam do ideal — e justamente por isso pode oferecer tempo para intervir antes que o risco se acumule.
| Neste Dia Mundial do CoraçãoSe o ciclo mudou, o sono piorou ou os sintomas da transição começaram, aproveite a consulta para falar também sobre pressão, colesterol e glicemia. Cuidar do coração faz parte do cuidado com a menopausa. |
A mensagem é direta: não espere um sintoma cardíaco para conhecer seus números. Informação, rastreamento e acompanhamento adequado transformam alerta em prevenção.
Importante
Este conteúdo é informativo e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento. Dor ou pressão no peito, falta de ar súbita, suor frio, desmaio ou mal-estar intenso exigem avaliação de urgência.
Referências
1. Nayak A, Pampana A, Gaonkar M, et al. Cardiovascular Health Characterization Using Life’s Essential 8 Score in Perimenopausal Women: An Analysis of the National Health and Nutritional Examination Survey. Journal of the American Heart Association. 2026;15:e046898. doi:10.1161/JAHA.125.046898.
2. American Heart Association. Perimenopause may offer a ‘window of opportunity’ for heart disease prevention in women. Newsroom; 13 maio 2026.
3. El Khoudary SR, Aggarwal B, Beckie TM, et al. Menopause Transition and Cardiovascular Disease Risk: Implications for Timing of Early Prevention. Circulation. 2020. doi:10.1161/CIR.0000000000000912.
4. World Heart Federation. World Heart Day. 29 September 2026.

