Se o desejo sexual mudou e você se pega pensando “será que sou só eu?”, respire: não é. A queda de libido na menopausa é uma das queixas mais comuns dessa fase, e existe muita ciência (e muita solução) por trás dela. Neste artigo, a gente explica por que o desejo diminui, o que é a tal secura vaginal e o que realmente ajuda, com base em evidência atual e sem promessas mágicas.
Por que o desejo cai na menopausa
A sexualidade feminina é multifatorial: ela responde a hormônios, ao corpo, à cabeça e ao relacionamento, tudo ao mesmo tempo. Na perimenopausa e na menopausa, várias dessas engrenagens mudam de uma vez.
Do lado hormonal, a queda do estrogênio afeta diretamente os tecidos genitais, e a redução gradual dos androgênios (como a testosterona, que também é um hormônio feminino) pode influenciar o desejo em parte das mulheres.
Mas não para por aí. Ondas de calor que atrapalham o sono, cansaço, alterações de humor, estresse, autoimagem e a própria dinâmica do casal pesam muito. Por isso, tratar libido só como “questão de hormônio” é reduzir demais um assunto que é bem mais rico.
GSM: o nome novo para um problema antigo
Um dos maiores vilões do desconforto sexual nessa fase é a chamada síndrome geniturinária da menopausa (GSM). O termo foi consolidado em um posicionamento conjunto da The Menopause Society (antiga NAMS) e da ISSWSH, atualizado em 2020, e reúne sintomas como secura vaginal, ardência, irritação, dor na relação (dispareunia) e sintomas urinários.
A GSM é muito frequente: no estudo observacional AGATA (Palma e cols., 2016, publicado na Maturitas), a maioria das mulheres avaliadas na pós-menopausa apresentava sinais de atrofia vaginal, e os sintomas tendiam a piorar com o tempo desde a última menstruação.
O ponto importante: diferente das ondas de calor, que costumam melhorar com os anos, a GSM tende a ser progressiva se não for cuidada. Ou seja, esperar passar geralmente não funciona.
Dor na relação não é “frescura” nem é para sempre
A dispareunia (dor durante o sexo) tem causa física real: com menos estrogênio, a mucosa vaginal fica mais fina, menos elástica e menos lubrificada. O resultado é atrito, ardência e, muitas vezes, um ciclo de medo e evitação que reduz ainda mais o desejo.
Reconhecer isso já é libertador: a dor não é sinal de que “algo em você está errado” nem de falta de amor pelo parceiro. É biologia, e biologia se trata.
O que ajuda de verdade (segundo a ciência)
Aqui vale a regra de ouro: o que funciona depende da causa. Por isso, o primeiro passo é sempre conversar com seu ginecologista, que vai avaliar o seu caso individualmente. As opções abaixo são informativas, não uma prescrição.
1. Lubrificantes e hidratantes vaginais
Para desconforto e secura, lubrificantes (usados na hora da relação) e hidratantes vaginais (uso regular) são recomendados como primeira linha para sintomas leves, segundo o posicionamento de 2020 da The Menopause Society/ISSWSH. São acessíveis, sem hormônio e podem melhorar bastante o conforto.
2. Estrogênio vaginal (e outras terapias locais)
Quando os sintomas são mais intensos, o estrogênio vaginal em dose baixa é uma das opções mais estudadas e eficazes para a GSM, com bom perfil de segurança para uso local, conforme o mesmo posicionamento de 2020 e diretrizes mais recentes, como a da AUA/SUFU/AUGS (2025). Existem ainda opções como DHEA vaginal (prasterona) e ospemifeno. Nada disso deve ser iniciado por conta própria: quem indica é o médico.
3. Terapia hormonal (TRH) e o papel da testosterona
A terapia hormonal sistêmica pode ajudar sintomas amplos da menopausa e, indiretamente, a vida sexual, especialmente quando o incômodo vem de ondas de calor, sono e humor.
Sobre testosterona: o Consenso Global sobre Terapia com Testosterona para Mulheres (Davis e cols., 2019, publicado simultaneamente em Climacteric, Maturitas e outros) concluiu que a única indicação com evidência sólida é o transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH) em mulheres na pós-menopausa. A revisão sistemática e meta-análise de Islam e cols. (2019, The Lancet Diabetes & Endocrinology) mostrou melhora significativa em desejo, excitação e orgasmo, com efeitos colaterais possíveis como acne e aumento de pelos. A via oral não é recomendada. É um tratamento off-label, individualizado e feito com acompanhamento.
4. Mente e relacionamento também são tratamento
Desejo não mora só nos hormônios. Intervenções psicológicas têm evidência real: um ensaio clínico randomizado de Brotto e cols. (2021, Journal of Consulting and Clinical Psychology) mostrou que a terapia cognitiva baseada em mindfulness melhorou desejo e reduziu o sofrimento sexual em mulheres. Terapia sexual, cuidado com o sono, atividade física e o diálogo com o parceiro compõem o tratamento tanto quanto qualquer creme.
O que muda na prática
- Desejo baixo e dor no sexo são comuns na menopausa e têm causas biológicas reais, não é “coisa da sua cabeça”.
- A GSM (secura, ardência, dor) tende a piorar se não for cuidada, então não espere passar.
- Comece pelo simples: lubrificantes e hidratantes vaginais ajudam muito nos casos leves.
- Estrogênio vaginal, TRH e testosterona têm evidência, mas são decisões médicas e individualizadas: leve suas dúvidas ao ginecologista.
- Cuide também da mente, do sono e da relação: eles influenciam o desejo tanto quanto os hormônios.
- Buscar ajuda não é exagero. É autocuidado, e prazer faz parte da saúde.
Referências
The Menopause Society (NAMS) e ISSWSH, 2020 — The 2020 genitourinary syndrome of menopause position statement (posicionamento sobre GSM).
Palma F e cols. (estudo AGATA), 2016 — Prevalence of vaginal atrophy in postmenopausal women, Maturitas.
Davis SR e cols., 2019 — Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women (Climacteric, Maturitas e outros).
Islam RM e cols., 2019 — Safety and efficacy of testosterone for women: a systematic review and meta-analysis of randomised controlled trial data, The Lancet Diabetes & Endocrinology.
Brotto LA e cols., 2021 — Group mindfulness-based cognitive therapy for women’s sexual desire/interest, Journal of Consulting and Clinical Psychology.
Parish SJ e cols. (ISSWSH), 2021 — Clinical Practice Guideline for the Use of Systemic Testosterone for Hypoactive Sexual Desire Disorder in Women, The Journal of Sexual Medicine.
AUA/SUFU/AUGS, 2025 — Genitourinary Syndrome of Menopause Guideline, Journal of Urology.
MenoTech — menotech.com.br · Conteúdo com base em evidência científica.

