Poucos temas geram tanta confusão quanto este: afinal, a terapia hormonal da menopausa faz mal? Se você já ouviu de uma amiga que “hormônio dá câncer” e do médico que “pode ajudar muito”, saiba que as duas frases nasceram da mesma história — e que a resposta honesta é mais equilibrada do que os extremos sugerem.
Neste artigo, vamos separar mito de verdade com base em evidência científica atual. O objetivo não é convencer você a fazer ou não fazer TRH, e sim devolver a você informação de qualidade para conversar com seu médico. Porque essa decisão é, sempre, individual.
De onde veio o medo: o legado do estudo WHI
Em 2002, o estudo Women’s Health Initiative (Rossouw et al., JAMA, 2002) interrompeu antes do previsto um de seus braços de pesquisa. As manchetes foram avassaladoras: a terapia hormonal aumentava o risco de câncer de mama, infarto e AVC. Da noite para o dia, milhões de mulheres pararam o tratamento.
O problema não foram os dados em si, mas como foram lidos. O WHI testou um tipo específico de hormônio (estrogênio equino conjugado com medroxiprogesterona) em mulheres com idade média de 63 anos — muitas já bem distantes da menopausa. Ou seja: um perfil que hoje sabemos não ser o ideal para começar TRH.
O que o WHI realmente mostrou
Aqui entra uma distinção fundamental: risco relativo x risco absoluto.
O braço com estrogênio + progestágeno mostrou um aumento no diagnóstico de câncer de mama após cerca de 5 anos de uso. Em números absolutos, isso significou aproximadamente 8 casos adicionais por 10.000 mulheres por ano de uso (Rossouw et al., JAMA, 2002). É um aumento real, mas pequeno — e comparável, em magnitude, a fatores como consumo regular de álcool ou sobrepeso.
Mais surpreendente: o braço com estrogênio isolado (para mulheres histerectomizadas) não aumentou o câncer de mama. No seguimento de longo prazo, chegou a mostrar redução (LaCroix et al., Lancet Oncology, 2012).
Mito x verdade: o que a ciência diz hoje
“Hormônio dá câncer de mama”
Parcialmente mito. O risco existe, mas é modesto, depende do tipo de terapia, do tempo de uso e do perfil de cada mulher. A The Menopause Society (posicionamento de 2022, revista Menopause) estima que o risco atribuível ao esquema combinado é de menos de 1 caso por 1.000 mulheres por ano de uso — classificado como raro. E o estrogênio isolado tem risco ainda menor.
“TRH aumenta a mortalidade”
Mito. O seguimento de 18 anos do WHI (Manson et al., JAMA, 2017) não encontrou aumento de mortalidade geral, por câncer ou cardiovascular entre as usuárias, em nenhum dos esquemas.
“Toda mulher deveria fazer para prevenir doenças”
Também mito. A TRH não é recomendada para prevenir doença cardiovascular ou demência em quem não tem sintomas. Ela é indicada principalmente para tratar sintomas que afetam a qualidade de vida.
A janela de oportunidade
Este é talvez o conceito mais importante e menos divulgado. A chamada “janela de oportunidade” (timing hypothesis) indica que o balanço entre benefícios e riscos é mais favorável quando a terapia começa antes dos 60 anos ou dentro de 10 anos do início da menopausa (The Menopause Society, 2022; Mehta et al., Journal of Women’s Health, 2019).
Nesse grupo, para mulheres com sintomas vasomotores incômodos e sem contraindicações, os benefícios tendem a superar os riscos. Começar muito tarde, como no perfil médio do WHI original, muda essa equação — e ajuda a explicar por que os resultados de 2002 assustaram tanto.
As diretrizes brasileiras seguem a mesma direção. A FEBRASGO, em suas diretrizes atualizadas (2024), reforça a individualização e o conceito de janela de oportunidade para o início da terapia.
Para quem a TRH pode ser considerada
De forma geral, as principais indicações discutidas nas diretrizes incluem:
- Fogachos e suores noturnos moderados a intensos que atrapalham o dia a dia.
- Síndrome geniturinária da menopausa (secura, desconforto íntimo).
- Prevenção da perda óssea em mulheres de maior risco, dentro da janela adequada.
- Menopausa precoce ou insuficiência ovariana prematura.
E existem contraindicações claras — como câncer de mama atual ou prévio, doença hepática ativa, histórico de trombose ou sangramento vaginal não investigado. Por isso nada substitui a avaliação médica individual, que também considera seu histórico cardiovascular.
O que muda na prática
- TRH não é “boa” nem “má” no absoluto. O que existe é a decisão certa para o seu caso, no seu momento.
- Idade e tempo de menopausa importam. A janela de oportunidade é um dos fatores mais relevantes.
- Tipo, via e dose fazem diferença. Estrogênio isolado, combinado, oral ou transdérmico têm perfis de risco distintos.
- Risco pequeno é diferente de risco zero — e de risco enorme. Peça sempre os números absolutos ao seu médico.
- A informação empodera, mas não prescreve. Leve suas dúvidas e seu histórico para uma consulta especializada.
Se há uma verdade definitiva aqui, é esta: você merece decidir com base em ciência, não em medo herdado de manchetes de 2002.
Referências
Rossouw JE et al. Risks and Benefits of Estrogen Plus Progestin in Healthy Postmenopausal Women (Women’s Health Initiative), JAMA, 2002.
Anderson GL et al. Effects of Conjugated Equine Estrogen in Postmenopausal Women With Hysterectomy (WHI), JAMA, 2004.
LaCroix AZ et al. Conjugated equine oestrogen and breast cancer incidence and mortality in postmenopausal women with hysterectomy: extended follow-up of the WHI, Lancet Oncology, 2012.
Manson JE et al. Menopausal Hormone Therapy and Long-term All-Cause and Cause-Specific Mortality (WHI 18-year follow-up), JAMA, 2017.
The North American Menopause Society (The Menopause Society). The 2022 Hormone Therapy Position Statement, Menopause, 2022.
Mehta JM, Chester RC, Kling JM. The Timing Hypothesis: Hormone Therapy for Treating Symptomatic Women During Menopause and Its Relationship to Cardiovascular Disease, Journal of Women’s Health, 2019.
FEBRASGO. Diretrizes para a Terapia Hormonal no Climatério e Menopausa, 2024.
MenoTech — menotech.com.br · Conteúdo com base em evidência científica.

