Sintomas emocionais também fazem parte da transição
A perimenopausa pode começar anos antes da última menstruação. Nesse período, estrogênio e progesterona oscilam, o ciclo muda e sintomas físicos e emocionais podem aparecer em combinações diferentes.
Irritabilidade, ansiedade, piora do sono, dificuldade de concentração, fadiga, perda de confiança e humor deprimido podem surgir ou se intensificar nessa fase. Para algumas mulheres, os sintomas aparecem junto de ondas de calor, suor noturno, palpitações, alterações menstruais, dores ou desconforto vaginal. Para outras, a mudança emocional é o primeiro sinal percebido.
Isso não significa que todo sofrimento emocional entre 40 e 55 anos seja causado por hormônios. Trabalho, sobrecarga de cuidado, relações, luto, doenças, medicamentos, álcool, apneia do sono, transtornos de ansiedade e depressão também podem participar. A avaliação precisa considerar o conjunto, não escolher previamente uma única explicação.
O que o dado dos 39 por cento realmente permite dizer
O levantamento divulgado pela Newson Health sugere que uma parcela relevante das mulheres pode receber tratamento para humor antes de ter seus sintomas avaliados no contexto da menopausa. Ele levanta uma pergunta importante sobre reconhecimento clínico, mas não prova que todas essas prescrições estavam erradas.
Para saber se houve tratamento inadequado, seria necessário conhecer o diagnóstico, a gravidade dos sintomas, o histórico de saúde mental, as contraindicações à terapia hormonal, as preferências de cada mulher e a finalidade do antidepressivo. Alguns antidepressivos também são usados como opções não hormonais para sintomas vasomotores, especialmente quando a terapia hormonal não pode ou não quer ser utilizada.
A crítica mais precisa, portanto, não é “antidepressivo nunca deveria ser prescrito”. É: nenhuma mulher deveria receber uma explicação incompleta quando os sintomas podem estar relacionados à transição menopausal.
O que dizem as diretrizes
A diretriz do National Institute for Health and Care Excellence, o NICE, recomenda considerar terapia hormonal para aliviar sintomas depressivos que começaram junto com outros sintomas da menopausa e que não preenchem critérios para diagnóstico de depressão. A terapia cognitivo-comportamental também pode ser considerada para sintomas depressivos ou dificuldades do sono associadas à transição.
A mesma diretriz diferencia esse cenário da depressão clínica. Quando a mulher apresenta um transtorno depressivo suspeito ou confirmado, o cuidado deve seguir as recomendações específicas de saúde mental. Isso pode incluir psicoterapia, antidepressivos ou a combinação de abordagens, conforme gravidade, riscos e preferências.
Também é importante não misturar indicações. O NICE orienta não oferecer rotineiramente inibidores seletivos da recaptação de serotonina, inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina ou clonidina como primeira linha para sintomas vasomotores isolados. Outras diretrizes reconhecem alguns desses medicamentos como alternativas não hormonais eficazes para fogachos em situações selecionadas.
Em resumo: antidepressivos não são substitutos automáticos da avaliação da menopausa, mas continuam sendo medicamentos legítimos quando há indicação clínica.
Não é apenas que o hormônio caiu
A frase “o problema é o hormônio caindo” é atraente porque oferece uma explicação simples, mas a biologia da perimenopausa é mais complexa. Antes da menopausa, os níveis hormonais podem oscilar de forma imprevisível. Essas mudanças interagem com sono, estresse, vulnerabilidade prévia, sintomas físicos e contexto de vida.
Mulheres com histórico de depressão, ansiedade, transtorno disfórico pré-menstrual ou depressão pós-parto podem apresentar maior vulnerabilidade durante transições hormonais. Ao mesmo tempo, alguém sem histórico psiquiátrico também pode desenvolver sintomas importantes na perimenopausa.
Por isso, não existe um teste isolado que separe perfeitamente “humor hormonal” de “depressão verdadeira”. Depressão durante a menopausa continua sendo depressão e merece cuidado. A pergunta clínica não deve ser hormônio ou saúde mental, mas quais fatores estão contribuindo e qual combinação de tratamentos oferece mais benefício e segurança.
Quando a terapia hormonal pode entrar na conversa
A terapia hormonal é o tratamento mais eficaz para ondas de calor e suores noturnos. Também pode melhorar o sono quando ele é interrompido por esses sintomas e pode aliviar sintomas depressivos que surgem no mesmo período, especialmente quando não há depressão clínica estabelecida.
Isso não significa que terapia hormonal seja um antidepressivo nem que seja indicada para todas. A decisão depende de idade, tempo desde a menopausa, presença do útero, tipo de sintoma, histórico de câncer, trombose, doença cardiovascular, enxaqueca, sangramento e outros fatores.
Também não é correto prometer que tratar a “queda hormonal” resolverá qualquer ansiedade ou alteração de humor. Algumas mulheres melhoram muito; outras precisam de psicoterapia, tratamento psiquiátrico, mudanças no sono ou uma combinação de abordagens.
Quando antidepressivos podem ser a escolha correta
Antidepressivos podem ter um papel importante quando há depressão maior, transtorno de ansiedade, sintomas persistentes com prejuízo funcional ou risco de autoagressão. Também podem ser considerados quando a mulher já respondeu bem a esse tratamento, não deseja terapia hormonal, apresenta contraindicações ou precisa de uma opção não hormonal para fogachos.
O nome da classe pode confundir: alguns antidepressivos são usados em doses e objetivos diferentes para sintomas vasomotores. Isso não significa que a médica ou o médico esteja necessariamente atribuindo o quadro a uma doença psiquiátrica.
Como qualquer medicamento, eles têm possíveis efeitos adversos, interações e sintomas de retirada. Não devem ser iniciados, interrompidos ou reduzidos sem orientação. Se o tratamento já está funcionando, uma nova hipótese sobre menopausa não é motivo para suspendê-lo abruptamente.
O que uma consulta completa deveria perguntar
Quando humor, ansiedade ou sono mudam na meia-idade, uma avaliação mais completa inclui perguntas que conectam saúde mental, ciclo e sintomas físicos:
• Quando os sintomas começaram e o quanto interferem no trabalho, nos relacionamentos e no autocuidado.
• Como estão o ciclo menstrual, o fluxo e os intervalos entre as menstruações.
• Se existem ondas de calor, suores noturnos, palpitações, secura vaginal, dores, queda de libido ou névoa mental.
• Como estão sono, álcool, cafeína, medicamentos, tireoide e outras condições que podem produzir sintomas semelhantes.
• Se há histórico pessoal ou familiar de depressão, ansiedade, transtorno bipolar, depressão pós-parto, trombose, câncer ou doença cardiovascular.
• Quais tratamentos já foram tentados, quais ajudaram e quais efeitos adversos ocorreram.
Esse mapa permite discutir terapia hormonal, psicoterapia, antidepressivos, tratamento do sono, opções não hormonais e mudanças de estilo de vida sem transformar uma abordagem em inimiga da outra.
Sinais que pedem ajuda rápida
Tristeza persistente, perda de interesse, desesperança, crises intensas de ansiedade, incapacidade de realizar tarefas habituais ou pensamentos de morte não devem ser atribuídos apenas à menopausa. Esses sinais precisam de avaliação profissional rápida.
No Brasil, em situação de risco imediato, procure um serviço de urgência ou ligue para o SAMU pelo 192. O Centro de Valorização da Vida atende gratuitamente pelo 188. Informação sobre menopausa é importante, mas não substitui assistência em uma crise de saúde mental.
O que muda na prática
Se você recebeu um antidepressivo e sente que a menopausa não foi considerada, não interrompa o medicamento sozinha. Organize uma conversa de revisão:
• Registre por algumas semanas humor, sono, ciclo, fogachos e outros sintomas.
• Pergunte qual hipótese clínica levou à prescrição e qual resultado é esperado.
• Peça que a transição menopausal seja incluída na avaliação.
• Converse sobre benefícios, riscos e contraindicações da terapia hormonal e das opções não hormonais.
• Combine um prazo para reavaliar sintomas, efeitos adversos e necessidade de ajustes.
O objetivo não é trocar automaticamente um antidepressivo por hormônios. É sair de uma prescrição isolada para um cuidado individualizado, capaz de reconhecer tanto a menopausa quanto a saúde mental.
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Referências
Newson Health. Levantamento institucional sobre atendimento e prescrição de antidepressivos a mulheres com sintomas da menopausa, divulgado via Move Daily em 10 de setembro de 2026. Dados metodológicos completos não localizados em publicação científica revisada por pares.
National Institute for Health and Care Excellence. Menopause: identification and management. NICE guideline NG23. Recomendações atualizadas.
The Menopause Society. The 2023 nonhormone therapy position statement of The North American Menopause Society. Menopause. 2023;30(6):573–590.
The Menopause Society. The 2022 hormone therapy position statement of The North American Menopause Society. Menopause. 2022;29(7):767–794.
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