Quando o corpo começa a doer sem uma explicação óbvia
Rigidez ao acordar, dor nos ombros, joelhos ou mãos, incômodo muscular e sensação de que a recuperação ficou mais lenta. Para muitas mulheres, essas queixas aparecem ou se intensificam justamente durante a transição para a menopausa.
Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2026 na JBJS Open Access reuniu dados de 37 estudos, realizados em 22 países, com 93.021 mulheres. O resultado confirma que dor muscular ou articular é frequente e se torna mais comum a partir da perimenopausa.
Isso não significa que toda dor nessa fase seja causada pelos hormônios. Significa que a etapa reprodutiva precisa entrar na investigação clínica, ao lado de idade, atividade física, sono, saúde mental, peso, lesões e doenças musculoesqueléticas.
O que a revisão encontrou
Os pesquisadores compararam a prevalência de sintomas musculoesqueléticos em diferentes fases reprodutivas. A proporção de mulheres que relatavam dor muscular ou articular foi:
• 40% na pré-menopausa;
• 57% na perimenopausa;
• 59% na pós-menopausa.
Na comparação com mulheres na pré-menopausa, o risco relativo foi 35% maior durante a perimenopausa e 40% maior após a menopausa. Em números absolutos, isso correspondeu a aproximadamente 130 casos adicionais por mil mulheres na perimenopausa e 148 por mil na pós-menopausa.
A principal mudança parece acontecer na transição
Apesar dos percentuais de 57% e 59%, a comparação direta entre perimenopausa e pós-menopausa não mostrou diferença estatisticamente significativa. Esse resultado sugere um ponto de inflexão durante a transição menopausal, e não necessariamente uma piora contínua depois da última menstruação.
A revisão também encontrou aumento de sintomas moderados ou intensos na passagem da pré-menopausa para a perimenopausa. No entanto, os estudos utilizaram escalas, populações e definições diferentes, o que exige cautela na interpretação.
Por que músculos e articulações podem sentir essa mudança
O estrogênio participa de processos que envolvem músculo, cartilagem, sinóvia, tendões, ligamentos e percepção da dor. Durante a perimenopausa, suas oscilações e a queda progressiva podem afetar inflamação, produção de colágeno, elasticidade dos tecidos e recuperação muscular.
Mas a relação não é simples nem exclusiva dos hormônios. O envelhecimento, a perda de massa e força muscular, o sedentarismo, mudanças na composição corporal, sono ruim, estresse e outras condições clínicas podem se somar e influenciar a intensidade dos sintomas.
Dor musculoesquelética é um termo amplo
A maioria dos estudos agrupou dor muscular e articular em categorias genéricas. Condições específicas, como osteoartrite, tendinopatias, capsulite adesiva, síndrome do túnel do carpo e tenossinovite de De Quervain, foram pouco relatadas.
Por isso, a revisão mostra a dimensão do problema, mas não permite concluir qual estrutura está envolvida em cada caso nem se a menopausa foi a causa direta. Dor no ombro, nas mãos ou nos joelhos continua exigindo avaliação individual.
O que o estudo não prova
Todos os trabalhos incluídos eram observacionais: 35 transversais e dois de coorte prospectiva. Esse desenho identifica associações, mas não estabelece causalidade.
A heterogeneidade estatística foi alta, indicando diferenças importantes entre os estudos. Localização geográfica e tipo de escala utilizada não explicaram essa variação. Também houve subnotificação de diagnósticos musculoesqueléticos específicos.
A revisão não demonstra que terapia hormonal seja tratamento universal para dores musculares ou articulares. A evidência sobre esse uso permanece incerta, e qualquer indicação deve considerar o quadro completo da mulher, seus sintomas, riscos e contraindicações.
Quando a dor precisa ser investigada
Não é adequado atribuir automaticamente uma dor nova à menopausa. Procure avaliação profissional quando houver dor persistente ou progressiva, limitação de movimento, inchaço, vermelhidão, calor local, rigidez prolongada pela manhã, perda de força, formigamento, febre, trauma ou impacto relevante na rotina e no sono.
Esses sinais podem indicar lesões, doenças inflamatórias, alterações neurológicas ou outras condições que precisam de diagnóstico e manejo específicos.
O que muda na prática
Reconhecer a relação entre a transição menopausal e os sintomas musculoesqueléticos amplia o cuidado, mas não substitui a investigação. Algumas medidas ajudam a organizar esse acompanhamento:
1. Observe o padrão da dor
Registre quando começou, onde dói, duração, intensidade, fatores que pioram ou aliviam e relação com sono, ciclo menstrual e atividade física.
2. Preserve força e mobilidade
Exercícios de força, atividades aeróbicas, mobilidade e equilíbrio ajudam a sustentar músculos, articulações e autonomia. A progressão deve respeitar condicionamento, sintomas e orientação profissional quando necessária.
3. Não normalize a perda de função
Dor que impede caminhar, trabalhar, dormir ou realizar tarefas não deve ser tratada como parte inevitável do envelhecimento.
4. Cuide dos fatores que amplificam a dor
Sono insuficiente, estresse, inatividade e excesso de carga podem aumentar a sensibilidade à dor e dificultar a recuperação. O plano de cuidado precisa olhar para o conjunto.
5. Busque uma avaliação integrada
Dependendo do quadro, ginecologista, clínico, reumatologista, ortopedista e fisioterapeuta podem contribuir para diferenciar sintomas da transição menopausal de doenças ou lesões específicas.
A dor é comum, mas não deve ser invisível
A revisão mostra que a dor musculoesquelética afeta mais da metade das mulheres na perimenopausa e na pós-menopausa. Trazer esse sintoma para a conversa clínica ajuda a reduzir o subdiagnóstico e a construir estratégias de cuidado mais completas.
O corpo pode mudar durante a transição, mas sentir dor não precisa ser aceito em silêncio. Informação, investigação adequada e movimento bem orientado podem proteger função e qualidade de vida.
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Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individualizada.
Referências
Kruse, C., McKechnie, T., Dworsky-Fried, J., et al. (2026). Musculoskeletal Manifestations of Perimenopause: A Systematic Review and Meta-Analysis of 93,021 Women. JBJS Open Access, 11(1), e25.00254. https://doi.org/10.2106/JBJS.OA.25.00254
Erthal, R. (2026). Climatério e dor musculoesquelética: o que o ortopedista precisa saber. Portal Afya. https://portal.afya.com.br/ortopedia/climaterio-e-dor-musculoesqueletica-o-que-o-ortopedista-precisa-saber
Zhou, S., Wang, Z., Zhao, X., et al. (2020). Musculoskeletal Pain during the Menopausal Transition: A Systematic Review and Meta-Analysis. Neural Plasticity, 2020, 8842110. https://doi.org/10.1155/2020/8842110

