Menopausa e coração: uma conversa que precisa acontecer
Quando pensamos em menopausa, quase sempre vêm à mente os fogachos, as noites mal dormidas e as oscilações de humor. Raramente pensamos no coração. Mas cuidar da saúde cardiovascular na menopausa talvez seja uma das decisões mais importantes que você vai tomar nesta fase da vida.
A doença cardiovascular é a principal causa de morte entre mulheres no mundo, e algo muda de forma silenciosa por volta dos 45 aos 55 anos. A boa notícia? Grande parte desse risco pode ser modificado. E entender o que acontece é o primeiro passo para agir.
Por que o risco cardiovascular aumenta depois da menopausa
Em 2020, a American Heart Association (AHA) publicou uma declaração científica dedicada exatamente a isso: Menopause Transition and Cardiovascular Disease Risk (El Khoudary SR e colaboradores, Circulation, 2020). O documento trouxe uma mudança de olhar importante: a transição para a menopausa não é apenas uma fase de sintomas, mas uma janela de aceleração do risco cardiovascular que merece atenção precoce.
O elo central é a queda do estrogênio. Esse hormônio ajuda a manter os vasos sanguíneos flexíveis e influencia diretamente o metabolismo de gorduras. Quando seus níveis caem, várias engrenagens do corpo mudam ao mesmo tempo.
O colesterol muda de perfil
Estudos de acompanhamento de longo prazo mostram que o perfil lipídico piora justamente ao redor da última menstruação. Na coorte SWAN (Study of Women’s Health Across the Nation), a análise Trajectories of Blood Lipids Profile in Midlife Women (Journal of the American Heart Association, 2023) observou aumento do colesterol total e do LDL (o chamado “colesterol ruim”) de forma mais marcada no período próximo à menopausa, independentemente do envelhecimento.
Ou seja: não é “só a idade”. A transição hormonal tem peso próprio.
A gordura muda de lugar
Outra mudança conhecida é a redistribuição de gordura. Mesmo sem grandes alterações no peso da balança, a gordura tende a se concentrar mais no abdômen, na forma de gordura visceral, aquela que envolve os órgãos e está mais associada a risco metabólico e cardiovascular. O estudo Increased visceral fat and decreased energy expenditure during the menopausal transition (Lovejoy JC e colaboradores, International Journal of Obesity, 2008) documentou esse aumento de gordura visceral acompanhado de queda no gasto energético durante a transição.
A pressão arterial e os vasos
A rigidez das artérias e a pressão arterial também tendem a subir nesse período, compondo, junto com colesterol e gordura visceral, um cenário que a AHA descreve como de risco cardiometabólico crescente na meia-idade.
E a terapia hormonal? O que a ciência realmente diz
Aqui entramos em um dos temas mais debatidos, e é importante falar dele com honestidade científica.
Por muitos anos, o estudo Women’s Health Initiative (WHI), do início dos anos 2000, gerou receio de que a terapia de reposição hormonal (TRH) aumentaria o risco cardiovascular. Reanálises posteriores, porém, revelaram um detalhe crucial: a idade em que a terapia começa parece fazer diferença. É a chamada “hipótese do tempo” ou timing hypothesis (Hodis HN e Mack WJ, Climacteric, 2012).
A ideia é que iniciar a TRH mais cedo, tipicamente antes dos 60 anos ou dentro de 10 anos da menopausa, teria efeito diferente sobre os vasos do que iniciar tardiamente. O ensaio clínico ELITE (Vascular Effects of Early versus Late Postmenopausal Treatment with Estradiol, Hodis HN e colaboradores, New England Journal of Medicine, 2016) reforçou essa linha ao mostrar efeito mais favorável sobre a aterosclerose subclínica quando o estradiol era iniciado precocemente.
É importante sinalizar: essa é uma área ainda em evolução e com controvérsias. A TRH não é recomendada com o objetivo de prevenir doença cardiovascular, e a decisão é sempre individual, considerando sintomas, histórico e fatores de risco. Nada aqui substitui a avaliação do seu médico. Fale com ele.
O que muda na prática
Se há uma mensagem central, é esta: muito do risco cardiovascular na menopausa é modificável. Veja onde a ciência aponta os maiores ganhos.
1. Coloque a alimentação a favor do seu coração
A dieta mediterrânea é uma das intervenções alimentares mais bem estudadas. O ensaio clínico randomizado PREDIMED (Estruch R e colaboradores, New England Journal of Medicine, 2018) mostrou redução de eventos cardiovasculares maiores em pessoas de alto risco que seguiram uma dieta mediterrânea suplementada com azeite de oliva extravirgem ou oleaginosas, em comparação com dieta de redução de gordura.
Na prática: mais azeite de oliva, peixes, leguminosas, castanhas, frutas, verduras e grãos integrais; menos ultraprocessados, carnes processadas e açúcar.
2. Movimente-se de forma consistente
Revisões sistemáticas com meta-análise indicam que o exercício ajuda a reduzir a pressão arterial e a rigidez arterial em mulheres na pós-menopausa (meta-análise sobre treino físico, rigidez arterial e pressão em mulheres pós-menopáusicas, 2024). A combinação de exercício aeróbico com treino de força tende a trazer benefícios amplos, do coração aos ossos e à composição corporal.
3. Monitore seus números
Peça ao seu médico para acompanhar de perto: colesterol (total, LDL, HDL e triglicerídes), pressão arterial, glicemia e circunferência abdominal. Conhecer seus números permite agir antes que o problema apareça.
4. Cuide do sono e do estresse
Sono ruim e estresse crônico impactam pressão, metabolismo e apetite. Não são “detalhes”: fazem parte da equação cardiovascular.
5. Não fume e modere o álcool
São dois dos fatores de risco mais consistentes e, ao mesmo tempo, os mais modificáveis.
O poder de agir na hora certa
A grande lição da declaração da AHA (2020) é sobre timing: a transição da menopausa é uma janela de oportunidade para a prevenção. As escolhas que você faz agora, na perimenopausa e nos primeiros anos após a menopausa, têm impacto real nas próximas décadas.
Você não precisa fazer tudo de uma vez. Um passo consistente por vez já muda a trajetória.
Quer continuar aprendendo a cuidar de você nesta fase com base em ciência de verdade? Acompanhe o blog da MenoTech e receba conteúdos confiáveis sobre menopausa e climatério. E se você é profissional de saúde e quer se aprofundar, conheça as formações MenoTech e torne-se referência no cuidado da saúde da mulher. Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica individualizada.
Referências
- El Khoudary, S. R., Aggarwal, B., Beckie, T. M., et al. (2020). Menopause transition and cardiovascular disease risk: implications for timing of early prevention: a scientific statement from the American Heart Association. Circulation, 142(25), e506-e532.
- Study of Women’s Health Across the Nation (SWAN). (2023). Trajectories of blood lipids profile in midlife women: does menopause matter? Journal of the American Heart Association.
- Lovejoy, J. C., Champagne, C. M., de Jonge, L., Xie, H., & Smith, S. R. (2008). Increased visceral fat and decreased energy expenditure during the menopausal transition. International Journal of Obesity.
- Hodis, H. N., & Mack, W. J. (2012). The timing hypothesis for coronary heart disease prevention with hormone therapy. Climacteric, 15(3), 217-228.
- Hodis, H. N., Mack, W. J., Henderson, V. W., et al. (2016). Vascular effects of early versus late postmenopausal treatment with estradiol (ELITE). New England Journal of Medicine, 374(13), 1221-1231.
- Estruch, R., Ros, E., Salas-Salvadó, J., et al. (2018). Primary prevention of cardiovascular disease with a Mediterranean diet supplemented with extra-virgin olive oil or nuts (PREDIMED). New England Journal of Medicine, 378(25), e34.
- Systematic review and meta-analysis. (2024). Effectiveness of exercise training on arterial stiffness and blood pressure among postmenopausal women.

