Ganho de Peso na Menopausa: Por Que Acontece

Não é só “falta de força de vontade”

Se a balança subiu e a barriga mudou de lugar mesmo sem grandes mudanças na sua rotina, você não está imaginando coisas. O ganho de peso na menopausa é real, tem explicação fisiológica e — a boa notícia — responde a estratégias concretas.

Neste artigo, você vai entender o que muda no seu metabolismo, por que a gordura migra para o abdômen e o que a ciência mostra que realmente ajuda. Sem culpa e sem soluções mágicas.

O que muda no corpo durante a transição

Dois processos acontecem ao mesmo tempo na perimenopausa e menopausa: a gordura se redistribui e a massa muscular diminui.

A gordura migra para o abdômen

Com a queda do estrogênio, o corpo tende a acumular gordura na região abdominal — inclusive a gordura visceral, aquela que fica em volta dos órgãos e está mais associada a riscos cardiometabólicos.

Um estudo longitudinal clássico de Lovejoy e colaboradores (International Journal of Obesity, 2008) acompanhou mulheres ao longo da transição menopausal e observou aumento da gordura visceral e redução do gasto energético — tanto em repouso quanto na atividade física — independentemente da idade.

Análises da grande coorte SWAN, publicadas por Greendale e colaboradores (JCI Insight, 2019), reforçaram esse padrão: o ganho de massa gorda acelera nos anos ao redor da última menstruação, enquanto a massa magra declina.

A massa muscular cai (e isso pesa no metabolismo)

A perda de músculo relacionada à idade e à queda hormonal — a caminho da sarcopenia — é parte central da história. Músculo é tecido metabolicamente ativo: quanto menos você tem, menor tende a ser seu gasto de energia em repouso.

Revisões sobre sarcopenia em mulheres na menopausa (Ko & Jung, International Journal of Women’s Health, 2021) destacam que a transição hormonal acelera essa perda muscular, criando um ciclo em que menos músculo favorece mais acúmulo de gordura.

Então o problema é o “metabolismo lento”?

Em parte. O gasto energético realmente tende a diminuir, mas menos por “mágica hormonal” e mais pela combinação de menos músculo, menos atividade física e, muitas vezes, menos sono e mais estresse.

Isso importa porque muda a estratégia: cortar drasticamente calorias sem cuidar do músculo pode piorar a composição corporal a longo prazo. O objetivo não é apenas pesar menos — é preservar músculo enquanto se reduz gordura.

O que a ciência mostra que funciona

1. Treino de força é prioridade (não opcional)

Se há uma intervenção com evidência sólida, é o treinamento resistido (musculação, faixas elásticas, peso do corpo).

Uma revisão sistemática com meta-análise (Frontiers in Public Health, 2025) concluiu que o treino de força melhora massa muscular, força e função física em mulheres mais velhas com sarcopenia. Um ensaio controlado de 20 semanas (BMC Women’s Health, 2023) também mostrou melhora na composição corporal de mulheres de meia-idade com o treino resistido.

A recomendação prática das principais diretrizes é treinar força pelo menos 2 vezes por semana, trabalhando os grandes grupos musculares.

2. Proteína suficiente ao longo do dia

Músculo precisa de estímulo (treino) e matéria-prima (proteína). O documento de consenso do grupo PROT-AGE (Bauer e colaboradores, JAMDA, 2013) recomenda, para adultos mais velhos, ingestão de proteína acima da média tradicional — em torno de 1,0 a 1,2 g por quilo de peso por dia, podendo ser maior para quem treina, sempre com acompanhamento profissional.

Distribuir a proteína entre as refeições (e não concentrar tudo no jantar) ajuda no estímulo à síntese muscular.

3. Déficit calórico sim, mas inteligente

Para reduzir gordura, ainda é preciso um balanço energético negativo. A diferença na menopausa é a estratégia: déficits moderados, priorizando proteína e treino de força, protegem o músculo. Dietas muito restritivas tendem a fazer você perder justamente o tecido que quer preservar.

4. E a terapia hormonal (TRH)?

Aqui vale cautela e clareza: a TRH não é um tratamento para emagrecer. Ainda assim, a evidência não sustenta o velho medo de que “hormônio engorda”.

Uma revisão sistemática com meta-análise (Journal of Human Growth and Development, 2023) não encontrou associação entre terapia hormonal e ganho de peso. Dados de coorte, como o estudo OsteoLaus (Papadakis e colaboradores, Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 2018), sugerem inclusive menor adiposidade total e visceral em usuárias de TRH.

A decisão sobre TRH é individual, com prós e contras, e deve ser tomada com seu ginecologista. Nenhum artigo substitui essa consulta.

O que muda na prática

  • Treine força 2 a 3x por semana. É a intervenção com maior retorno para músculo e metabolismo.
  • Coma proteína em todas as refeições. Converse com nutricionista sobre a meta ideal para o seu peso.
  • Prefira déficits moderados. Emagrecer devagar preservando músculo vence dietas relâmpago.
  • Cuide do sono e do estresse. Ambos influenciam apetite e acúmulo de gordura abdominal.
  • Meça além da balança. Circunferência abdominal, força e disposição contam a história completa.
  • Fale sobre TRH com seu médico se os sintomas afetam sua qualidade de vida — pensando na saúde global, não em emagrecer.

Um recado importante

O ganho de peso na menopausa tem base biológica — não é falha sua. E, justamente por ter explicação, tem caminho. Músculo, proteína e paciência científica valem mais do que qualquer promessa milagrosa.

Referências

  • Lovejoy, J. C., Champagne, C. M., de Jonge, L., Xie, H., & Smith, S. R. (2008). Increased visceral fat and decreased energy expenditure during the menopausal transition. International Journal of Obesity.
  • Greendale, G. A., Sternfeld, B., Huang, M., et al. (2019). Changes in body composition and weight during the menopause transition. JCI Insight.
  • Ko, J., & Jung, S. Y. (2021). Sarcopenia in menopausal women: current perspectives. International Journal of Women’s Health.
  • Bauer, J., Biolo, G., Cederholm, T., et al. (2013). Evidence-based recommendations for optimal dietary protein intake in older people: a position paper from the PROT-AGE Study Group. Journal of the American Medical Directors Association (JAMDA).
  • Chen, X., et al. (2025). Effects of resistance training on muscle mass, strength, and physical function in older women with sarcopenia: a systematic review and meta-analysis. Frontiers in Public Health.
  • Isenmann, E., et al. (2023). Resistance training alters body composition in middle-aged women depending on menopause — a 20-week control trial. BMC Women’s Health.
  • Papadakis, G. E., Hans, D., Gonzalez Rodriguez, E., et al. (2018). Menopausal hormone therapy is associated with reduced total and visceral adiposity: the OsteoLaus cohort. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism.
  • Systematic review and meta-analysis. (2023). Association between hormone therapy and weight gain in the menopause transition and after menopause. Journal of Human Growth and Development.

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